Desde 1949 a Casa do cidadão jarinuense

por Interlegis — última modificação 10/03/2026 14h56
Explore a história de Jarinu: desde os primeiros registros bandeirantes em 1650 e a fundação por Lourenço Franco de Camargo, até a emancipação política em 1948. Conheça os detalhes da primeira sessão da Câmara Municipal, os primeiros projetos de lei e as curiosidades sobre a evolução da 'Palmeira Preta' Você sabia? A primeira indicação da Câmara de Jarinu, em 1949, foi para consertar "torneiras desmanchadas". Entenda como a gestão do desperdício de água e um empréstimo de 150 mil cruzeiros foram os primeiros passos para organizar a "casa" após a independência de Atibaia.

A história de Jarinu é um testemunho de fé, resiliência e progresso. Como tantas cidades do Brasil, nossa trajetória começou em torno de uma capelinha, símbolo da simplicidade e da espiritualidade dos pioneiros.

Os primórdios e a ocupação bandeirante

A ocupação da então chamada Zona Bragantina remonta ao século XVII, com a penetração de bandeirantes vindos da antiga Vila de São João de Atibaia. Documentos de 1650 já registravam a existência de diversas fazendas na região, moldadas por pioneiros como Sebastião Serreto e João Viegas (1763), além de nomes como Domingos de Camargo e Inácio de Godoi Cardoso.

O fundador Lourenço Franco de Camargo

O Capitão Lourenço Franco de Camargo é reconhecido como o verdadeiro fundador de Jarinu.

Em 1786 foi nomeado Capitão do Bairro de Campo Largo (nome primitivo de Jarinu).

Em 1796, o censo registrava apenas 156 habitantes e 35 "fogos" (residências).

Já em 1807, em um ato de devoção, o Capitão e sua esposa, Dona Rita de Cássia de Morais, doaram as terras para a edificação da Capela de Nossa Senhora do Carmo.

De Campo Largo a Jarinu

O povoado cresceu em torno de sua fé. Em 1842, a localidade foi elevada à categoria de Freguesia (Distrito) de Atibaia. A mudança oficial para o nome Jarinu ocorreu 69 anos depois, em 29 de setembro de 1911, para evitar confusões postais com outras localidades homônimas.

Origem do nome sempre gerou certa discussão. A maioria dos historiadores concordam que o termo "Jarinu" tem raízes tupi e, embora existam variações de tradução, como "Campo Largo" ou "Rio das Palmeiras", o significado adotado é "Palmeira Preta", em uma alusão à palmeira jarina, existente apenas no extremo norte do país e nas Guianas.

O legado político e econômico

A política regional foi marcada pela figura do Coronel José Inácio da Silveira¹, que reconstruiu a capela matriz com recursos de sua fazenda e representou a região no Partido Republicano em 1877, ao lado de nomes como Campos Sales e Francisco Glicério. Economicamente, a cidade destacou-se pela pujança cafeeira, chegando a registrar, em 1929, 60 mil pés de café em uma única propriedade.

A emancipação e o Poder Legislativo

O desejo de autonomia culminou em um plebiscito em outubro de 1948. A emancipação foi selada pela Lei nº 233, de 24 de dezembro de 1948, sancionada pelo governador do estado, Adhemar de Barros.

A instalação do município ocorreu oficialmente em 17 de abril de 1949, mas foi em 19 de abril de 1949 que a história democrática de Jarinu ganhou seu capítulo fundamental: a realização da primeira sessão da Câmara Municipal.

A primeira sessão

A primeira sessão legislativa da história de Jarinu foi um marco de organização democrática e administrativa para o recém-criado município. Na tarde da terça-feira, 19 de abril de 1949, às 17h00, no Salão Nobre da Câmara².

A sessão foi aberta e presidida por Irineu Damásio de Oliveira, que teve como primeiro secretário o vereador Ângelo Bernucci e como segundo secretário o vereador Orlando Maurício Zambotto.

Além dos componentes da Mesa compareceram os vereadores Bruno Marcos Censi, Carlos Franco Penteado, Euclides Soares de Moura, Francisco Perini, Jacinto Lúcio do Prado, José Bernucci Neto, José Ângelo Malerba, Pedro Contesini, Rico Manara e Silvano Lorencini.

Primeiras eleições internas

Após verificar o quórum legal, o presidente realizou eleições para definir cargos de liderança e as comissões permanentes, todas com votação expressiva (11 votos cada):

A vice-presidência ficou com José Ângelo Malerba. Também foram formadas as Comissões Permanentes da Casa.

Comissão de Justiça, Legislação e Redação: Composta por Pedro Contesini, Silvano Lorencini, Jacinto Lúcio do Prado e Rico Manara.

Comissão de Higiene, Cultura, Assistência Social e Serviços Públicos: Composta por José Ângelo Malerba, Bruno Marcos Censi, Euclides Soares de Moura e Carlos Franco Penteado.

Comissão de Finanças e Orçamento: Composta por José Bernucci Neto, Orlando Maurício Zambotto e Francisco Perini.

O primeiro Projeto de Lei (PL nº 01)

A primeira grande decisão administrativa enviada pelo Executivo (prefeito Guilherme Zanoni) foi a autorização para um empréstimo junto ao Tesouro do Estado no valor de 150 mil cruzeiros³. O projeto foi lido, votado por unanimidade para deliberação e encaminhado à Comissão de Justiça para parecer.

A primeira indicação

O vereador José Bernucci Neto assinou a "Indicação nº 1", que tratava de uma preocupação prática com a infraestrutura da cidade. Ele solicitava que o fiscal distrital visitasse todos os prédios para identificar torneiras desmanchadas4.

A sessão foi encerrada após o anúncio de que nenhum outro vereador desejava fazer uso da palavra, consolidando o início oficial das atividades do Legislativo jarinuense.

¹ Uma propriedade do Coronel José Inácio da Silveira, no Centro de Jarinu fica na rua que o homenageia. No casarão pode se ver elementos arquitetônicos da virada do século XIX para o século XX e, em seus porões o local onde os escravos permaneciam à noite

² A Câmara funcionou, por um período, no prédio onde também funcionava a Prefeitura. Hoje a Casa da Cultura, na Rua Independência, no Centro de Jarinu.

³ Calcular o valor exato de uma moeda de 1948 para os dias de hoje é um desafio complexo devido às sucessivas trocas de padrão monetário no Brasil (Cruzeiro, Cruzado, Real etc.) e aos períodos de hiperinflação.

No entanto, utilizando índices de correção histórica e comparando o poder de compra, podemos chegar a uma estimativa:

Poder de Compra: Em 1948, 150 mil cruzeiros era uma quantia significativa para um município de pequeno porte. Para se ter uma ideia, o salário mínimo na época (que variava por região) girava em torno de 300 a 400 cruzeiros.

Estimativa em Real: Corrigindo o valor apenas pela inflação oficial acumulada e as conversões de moeda, esses 150 mil cruzeiros equivaleriam hoje a algo entre R$ 250.000,00 e R$ 400.000,00.

Embora não pareça uma fortuna para os padrões governamentais atuais, para a época representava um fôlego financeiro importante para obras de urbanização ou saneamento básico inicial.

4 O termo "torneiras desmanchadas" pode soar estranho hoje, mas no contexto administrativo de meados do século XX, ele tinha um significado muito prático relacionado à manutenção e ao desperdício.

"Desmanchada" era um sinônimo comum para algo que foi desmontado, quebrado ou cujas peças foram removidas (volantes, vedações ou "courinhos").

Uma torneira desmanchada quase sempre resultava em vazamento constante. Em 1948, os sistemas de captação e distribuição de água eram rudimentares e caros. Fiscalizar isso era uma questão de economia de recursos públicos e combate ao desperdício.

Basicamente, a Câmara estava preocupada com o estado de conservação do patrimônio e com a conta de água (ou o esforço de bombeamento) que esses defeitos geravam.

Curiosidade Histórica

Jarinu se emancipou politicamente de Atibaia justamente no final de 1948. Essa primeira sessão ordinária marca o nascimento administrativo da cidade, onde a prioridade era justamente colocar a "casa em ordem", desde a saúde financeira (o empréstimo) até a conservação dos prédios que a nova Prefeitura passava a administrar.